ANÁLISIS: De fronteiras, Gabriella e o futebol (ESPECIAL Por Felipe Fiuza poeta brasileño)

Eu gosto da política do pão e circo. As pessoas precisam comer. Esse lance de ensinar a pescar, na real, demora muito. Minha mãe, por exemplo, não sabe pescar, mas não vive sem café, queijo e pão. E circo, ao qual minha mãe tem pouco acesso, é bom pra danar. Seja circo mesmo, seja um bom futebol. Palhaçadas, mágicas, malabarismos, o globo da morte... tudo me encanta, ainda que os artistas sejam fracos. Até a Bolívia – que perdeu de 3 a zero para o Brasil, mas jogou pra não perder de mais – ou a Austrália – que ganhou de virada do Brasil, 3 a 2, mas não pareciam acreditar na própria sorte – entretêm, fascinam. Tanto a vitória quanto a derrota aconteceram sem que o maior nome da seleção estivesse em campo. Se não fosse o caso, isso afetaria o resultado dos jogos? Talvez. O fato de que sejam dois nomes diferentes, contra Austrália Marta e contra Bolívia Neymar, importa pouco para as afirmações anteriores, mas muito para este texto. Quanto pão e quanto circo estiveram envolvidos para que esses dois se tornassem tão grandes? Ou ainda, qual é a parcela de pão recebido pelos dois por seu papel em cada apresentação circense? Desnecessário dizer que a desigualdade se repete nas respostas. Os circos armados ao redor deles, pela imprensa, também tem proporções distintas. Enquanto para ele tudo, sempre, são holofotes e elogios, ou gritos de gaviões, que tentam fazer com que até o ouro de tolo brilhe, Marta tem que seguir conquistando seu espaço a dentadas, enquanto agarra câmeras e as direciona para si, para suas chuteiras, para outras mulheres. Duas pessoas que representam, assim, um microcosmos da sociedade latino-americana dentro do contexto do futebol. Até quando iremos tratar aos Neymares como se fossem mágicos, únicos, e as Martas como se fossem palhaças, descartáveis e substituíveis detrás de suas máscaras?

 

Recentemente meu sogro chegou à casa e lhe deu de presente a meu filho, João, uma bola. Tanto um quanto o outro tinham aquele olhar de cumplicidade de quem está passando uma tradição e de quem a está recebendo. Me olharam, ansiosos, como quem dizia “Você aprova?” Ou “Também está feliz por esse legado que se transmite?” Eu dei aquele sorriso amarelo de quem já prevê um problema, mas não quer estragar um momento cuidadosamente planejado para ser alegre. Minha filha, Gabriella, adora futebol. E tem talento pra coisa, bons passes, bons chutes, bom domínio de bola – parando a bola pisando em cima dela como boa jogadora de futsal com seu pezinho de 4 anos. Muito mais talento do que eu jamais tive. Claro que cada um, em casa, tem sua própria bola. Ou melhor ainda, temos várias e todos, sim a mãe dela também, jogamos juntos, coletivamente. Minha filha, portanto, jamais iria respeitar a fronteira recém-criada por meu sogro, ainda que inconscientemente, na qual a bola pertencia, exclusivamente, ao seu irmão, justamente porque esse limite nunca existiu para ela. Em menos de dois minutos ela já havia agarrado a esférica, saído correndo, e estava dando seus chutes – bem dados. O que causou, efeito contínuo, protestos do irmão. “Mas essa bola é minha. Foi meu avô quem me deu.” Neste momento, ainda com o avô perto, tive que intervir, sem ainda explicar-lhe ao meu filho o que realmente estava acontecendo. “É tua, mas se você não deixar tua irmã jogar, ninguém irá jogar.” E ele: “Tá, mas ela tem que pedir pra mim.” Apenas respondi, sem explicar o porquê, “Não, não tem.” Fato que não foi contestado nem por filho, nem por avô, talvez pela segurança com que falei. A bola não é nem de João nem de Neymar. Nem Marta, nem as outras jogadoras, nem Gabriella precisam pedir licença para usá-la. Nós homens sim devemos ser reeducados a pedir antes de tomar-lhes as vidas, tanto fisicamente, quanto materialmente ao não permitir-lhes que recebam tanto pão e tanto circo quanto nós. Porque as fronteiras e dificuldades da vida já são muitas sem que se criem outras tênues, porque falsas, imaginárias.