PREVIA BRASIL VS ARGENTINA: Pedir demais (Especial Paulo Dutra escritor brasileño)

Hoje eu me dirijo aos leitores e leitoras de Golazo em língua materna para falar de mais uma edição do jogo que talvez seja o maior clássico do futebol sul-americano: Brasil e Argentina. Uma Copa América (agora que Japão e Qatar já foram devidamente despachados a suas respectivas latitudes e longitudes) que apresentou uma fase de quartas-de-final recheada de empates pelo placar de 0X0 e em que, se não me falha a memória, somente a equipe Argentina anotou gols nessa fase, é o que apresenta, diante de nós, hoje em dia o futebol moderno. Insistia meu compadre que os jogos das quartas de final foram bons e emocionantes. Insistia eu em repetir a frase “3 empates por 0X0” seguidamente no zap zap (é assim que nós brasileiros, amantes das onomatopeias, nos referimos ao WhatsApp no Brasil).

Me recuso a crer que 3 empates sem gols na mesma fase da mesma edição da mesma competição possam ter sido bons jogos. Hoje de noite jogam Brasil e Argentina e para entrar no clima comecei a rever os minutos finais daquele Brasil e Argentina na Copa América de 2004. Primeiro revi com narração e comentários de brasileiros e depois com narração e comentários de argentinos. Ambos concordavam que o grupo argentino era melhor e mais experiente que o tupiniquim. Para os que não se lembram, o jogo estava empatado pelo placar mínimo até os 41 minutos do segundo tempo, quando, depois de um cruzamento, Sorín, aquele que jogou no Brasil, a meu ver, tentou cabecear para o gol, falhou, e, ato seguido, um tal de Renato deu aquela famosa furada, e, por isso, a bola sobrou redondinha para Delgado dominar e mandar uma bomba indefensável

https://www.youtube.com/watch?v=p5hfcMjIAoY.

Toda essa sequência de erros e acertos é parte do futebol, ou pelo menos era. A partir daí a Argentina, do Loco Bielsa, começou a catimbar e gastar o tempo, sempre tentando manter a bola no campo adversário. Isso também é, ou pelo menos era, parte do futebol e o chororô do narrador brasileiro não se justificava. O mesmo narrador, agora que via a derrota iminente e inexorável, regurgita e cospe uma série de desculpas para justificar e, ao mesmo tempo, glorificar a honrosa derrota da jovem, guerreira, inexperiente, que-chegou-até-muito-longe, seleção brasileira, esquecendo-se de uma máxima do futebol: o jogo só acaba quando o juiz apita. Isso porque alguns minutos depois, numa jogada que começou com uma cobrança de falta ainda no campo brasileiro e bola alçada na meia-lua adversaria, no rebote, troca de passes entre Felipe e Diego, este, hoje jogador do Flamengo, da intermediária, fez lançamento diagonal e botou a criança lá entre a linha da grande área e a marca do pênalti. O que se vê então é um emaranhado de pernas, braços, camisas amarelas e azul e brancas, um corpo que cai, espalhafatoso, de repente um pontinho branco surge e fazendo uma embaixada, sem deixar a bola quicar, em pose e movimento de ginástica olímpica ou contorcionista de circo, aos 47 minutos do segundo tempo, Adriano Imperador acerta na veia uma bola que provoca imediato desejo suicida no narrador argentino que grita sem nenhum entusiasmo: me quiero matar. Me quiero matar, Adriano.

https://www.youtube.com/watch?v=zpcVfJze_O0

Hoje eu vou ver o jogo em algum sports bar texano (queiram os deuses do futebol que o bartender gringo atenda ao meu pedido de colocar no canal do jogo) sem a mediação de narradores e nem quero que o jogo seja igual àquele, ou que tenha o mesmo desfecho, torço somente, e recorro a todas as religiões que se constituem na cultura brasileira, para que o espírito daquele jogo de 2004 se faça presente nesta noite. É pedir demais?